Monteiro Lobato e a ortografia
- Senhor Sabbado, venha cá. […] Diga-me: por que é que traz no lombo dois BB quando poderia passar muito bem com um só?
[…]
- É por causa da bruxa velha Como venho do latim sabbatum, que, por sua vez, veio do hebraico Sabbat, ela não consente que eu me alivie deste inútil. Há séculos que trago no lombo semelhante parasita, que nenhum serviço me presta. […] O meu sonho é ver-me livre deste trambolho.
Emília arrancou-lhe o B inútil e disse:
_ Pois fique com um B só. […] Estou aqui representando os interesses das crianças, que constituem o futuro da humanidade _ e as crianças preferem sábados com um B só. Vá passear e nunca mais me ponha o segundo B!
Depois da tremenda revolução ortográfica da Emília, o Brasil ficou envergonhado de estar mais atrasado que uma bonequinha e resolveu aceitar suas idéias. E o Governo e as academias de letras realizaram a reforma ortográfica. Não saiu boa coisa, mas serviu. Infelizmente cometeram um grande deslize: resolveram adotar uma porção de acentos injustificáveis. […] E apareceu até um tal trema (¨) que é implicantíssimo. A pobre palavra “frequencia” que toda a vida foi escrita sem acento nenhum, passou a escrever-se assim: “freqüência”.
Fontes:
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. São Paulo: Nova Fronteira, 2000.
LOBATO, Monteiro. Emília no País da Gramática. São Paulo: Brasiliense, 2004.
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